Adriana, personagem de Leticia Colin, surge na novela Quem Ama Cuida como uma mulher moldada pela perda e pela responsabilidade. Criada na periferia, ela aprendeu desde cedo a colocar a família em primeiro lugar, tornando-se o principal suporte emocional dentro de casa. A base desse núcleo é o avô Otoniel (Tony Ramos), figura firme e guiada por valores de dignidade e justiça, enquanto a mãe Elisa (Isabela Garcia) enfrenta fragilidades de saúde. Já o irmão mais novo, Maurício, o Mau Mau (João Victor Gonçalves), ainda busca seu caminho, sob a proteção constante da irmã.
Veja também:
A trajetória de Adriana ganha contornos mais complexos após uma tragédia que transforma completamente sua vida. Ao perder o marido, a casa e o trabalho durante uma enchente em São Paulo, ela é colocada diante de um recomeço forçado. É nesse contexto que cruza o caminho de Pedro, interpretado por Chay Suede, em um encontro marcado por intensidade e silêncio. Mesmo fragilizada, Adriana demonstra uma força contida, quase enigmática, que chama atenção — como se houvesse sempre algo não dito por trás de suas atitudes.
Segundo Letícia Colin, essa complexidade é justamente o que sustenta a personagem. Adriana é alguém que se doa com facilidade, capaz de perceber e acolher o outro, mas que frequentemente coloca seus próprios desejos em segundo plano. Essa característica a leva a tomar decisões difíceis ao longo da trama, muitas vezes guiadas mais pelo senso de responsabilidade do que pela própria vontade. Há, portanto, uma dualidade constante entre o cuidado com os outros e a necessidade de afirmar a própria existência.
Esse conflito interno se intensifica quando Adriana se vê envolvida em situações que fogem ao seu controle, colocando à prova sua resiliência e seus valores. Entre escolhas arriscadas e consequências inesperadas, a personagem revela camadas que vão além da imagem inicial de força. É justamente nesse jogo entre vulnerabilidade e resistência que Adriana se constrói — uma mulher que, mesmo diante das adversidades, parece guardar segredos e emoções que só o tempo será capaz de revelar.
Confira abaixo a entrevista completa que fiz com Leticia Colin e descubra os bastidores e segredos de Adriana.
Após uma sequência de personagens com traços mais ambíguos, o que mais te motivou a aceitar o desafio de interpretar uma protagonista com perfil de mocinha como Adriana?
O que mais me motivou foi justamente o fato de a Adriana antes de ser uma “mocinha” é uma mulher, uma brasileira que tem que colocar pão na mesa, construída a partir da força de justiça, e do amor sem banalização, não da ingenuidade. Essa força aciona inclusive a violência de vingança dentro dela. Isso é muito interessante. Ela é uma guerreira, é Artemis, a caçadora selvagem. Não é uma personagem passiva. Pelo contrário: é uma mulher que enfrenta a vida de frente, não se submete aos ricos e poderosos, reage às injustiças e que sustenta não só a si mesma, mas toda a família. Esse tipo de protagonismo, ancorado em princípios e humanidade, me interessa profundamente.
Adriana passa por uma trajetória intensa, marcada por luto, injustiça e transformação. Como foi o seu processo de preparação para dar conta dessas camadas emocionais?
A preparação passou muito por entender o acúmulo de perdas que a Adriana atravessa em um curto espaço de tempo. Ela vive um dia absolutamente devastador, em que perde o emprego, a casa e o marido – uma sequência de acontecimentos que testam qualquer limite emocional. Trabalhei essa jornada como um processo contínuo, sem atalhos: a dor, o luto, a necessidade de seguir trabalhando, a responsabilidade com a família. Mas, acima de tudo, buscava preservar a luz interna da Adriana, essa capacidade de se levantar, de se reinventar no meio do caos, que é tão reconhecível na experiência brasileira. Mas, a caminhada de uma novela das 21h é longa e a personagem ainda passará por muitas provações. Não construí nada fechado, e vou amar me surpreender com as escolhas dos autores. Eu sou atriz nessa obra pro der e vier.
A personagem vive um dilema entre justiça e vingança ao deixar a prisão. Como você enxerga essa dualidade e o que o público pode esperar dessa virada?
Eu vejo esse momento como um ponto de virada muito potente. A Adriana sai da prisão com uma urgência profunda por justiça. Ela foi vítima não só de um crime, mas de preconceito social, de manipulação, de um sistema que a esmagou quando ela já estava fragilizada. O conflito dela é justamente não deixar que a dor a transforme em alguém que ela não é. O público pode esperar uma personagem mais endurecida pela experiência, sim, mas ainda guiada por valores iluminados.
De que forma suas experiências pessoais, especialmente ligadas ao bem-estar e à saúde mental, contribuíram para a construção da força e resiliência da Adriana?
A Adriana é uma personagem que ensina muito sobre atravessar o sofrimento sem perder a capacidade de acolher o outro – e isso, inevitavelmente, dialoga com qualquer reflexão sobre bem-estar emocional. A construção dessa força vem do entendimento de que ela não nega a dor, mas aprende a conviver com ela, a transformá-la em movimento. Ela abraça como um todo, e eu quero aprender a fazer isso também. A gente por vezes pode querer apenas o que é bom, e isso é infantil. Ela é uma mulher. Adulta. Tem uma resiliência que não é heroica no sentido clássico, mas cotidiana, humilde, íntegra, persistente, feita de responsabilidade, trabalho e cuidado.
O papel marca um momento importante na sua trajetória na TV. O que esse projeto representa para você neste momento da carreira?
Esse projeto representa a oportunidade de contar uma grande história de amor sem pieguice, ancorada no cuidado, no afeto e na solidariedade. A Adriana sintetiza muitas mulheres que vemos: aquelas que sustentam a família, dão conta da casa, dos filhos, e que enfrentam perdas profundas e que, ainda assim, seguem em frente com dignidade. Interpretar uma protagonista com essa carga emocional e simbólica, num folhetim que dialoga com questões tão contemporâneas, é muito significativo para mim neste momento da carreira.
O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.
