Entrevista

Depois de duas temporadas como delegada em DNA do Crime, Letícia Tomazella muda de lado e vive presidiária em Tremembé

Série chega em outubro ao catálogo do Prime Video

Publicado em 17/09/2025

A atriz Letícia Tomazella tem personagens bastante diversificados em sua trajetória na televisão. Seu trabalho é conhecido tanto dos admiradores das novelas infantojuvenis do SBT, depois que ela fez com sucesso a Arlete de As Aventuras de Poliana (2018-2020), quanto daqueles que apreciam as histórias bíblicas da Record – como A Terra Prometida (2016) e Gênesis (2021).

Formada na Escola de Arte Dramática da USP, com Mestrado em Teatro Brasileiro pela Unesp, Letícia Tomazella tem mais de 20 peças no currículo – entre as quais A Megera Domada, de William Shakespeare, com direção de Isser Korik, na qual viveu a protagonista Catarina. No streaming, fora a Delegada Vendramin em DNA do Crime, a artista esteve em O Negócio e poderá ser vista em Tremembé, aqui do outro lado da história: seu papel é de uma criminosa.

Na nova série, a ser lançada em outubro pelo Prime Video, Letícia Tomazella tem ao lado colegas como Marina Ruy Barbosa, Felipe Simas, Anselmo Vasconcelos e Bianca Comparato para falar do dia a dia de presos bem famosos, na penitenciária localizada no interior paulista. Confira abaixo entrevista exclusiva da atriz:

FÁBIO COSTA – Durante mais de 10 anos, fora outros produtos como desenhos animados e séries, o SBT dedicou uma faixa da programação a novelas dedicadas essencialmente ao público infantojuvenil, embora tenham chamado também a atenção de parcela da audiência adulta receptiva a histórias mais leves como As Aventuras de Poliana, de cujo elenco você fez parte, no papel de Arlete. Agora, ao fim de A Caverna Encantada e após os trabalhos de produção de uma série, o departamento está sendo encerrado pela emissora. Como você enxerga esse fechamento de um espaço de histórias inéditas para crianças e jovens, já consolidado e que se mostrou válido do ponto de vista do mercado?

LETÍCIA TOMAZELLA – Sempre que um teatro fecha, ou um núcleo criativo fecha, ou um departamento de TV que tinha foco artístico, eu fico triste. O SBT foi uma casa muito bacana que abrigou nosso elenco por mais de dois anos, fora os outros elencos de outros produtos da casa. Foi uma das poucas emissoras que pensaram no público infantojuvenil. E é canal aberto, ou seja, acessava fortemente o povo brasileiro e era uma opção bacana para os que não podem pagar TV por assinatura. Então lamento que tenhamos perdido a dramaturgia da emissora.

FC – Em seu currículo televisivo há outro filão de sucesso iniciado há cerca de 10 anos, que é o da chamada dramaturgia bíblica, embora haja em histórias como A Terra Prometida e Jesus elementos do folhetim como em qualquer novela. O que você acha que pode ser feito para diminuir o preconceito com histórias com as características destas?

LT – Acredito que foi o investimento em equipe de qualidade que trouxe isso que você coloca.
Isso faz diferença em qualquer obra: um elenco bom, roteiristas bons, enfim, equipe
preparada e dedicada. Isso faz uma obra ser boa de ver.

Letícia Tomazella como delegada Vendramin na série DNA do Crime, da Netflix
Letícia Tomazella como delegada Vendramin na série DNA do Crime, da Netflix

FC – Produções de dramaturgia mais curtas, mas com o sabor de novela, como Pedaço de Mim (Netflix) e Beleza Fatal (HBO Max), têm conquistado uma parcela da audiência que aprecia o gênero, mas deseja um compromisso que dure menos do que as novelas tradicionais. DNA do Crime (Netflix) mostra você no papel de uma delegada, uma agente da lei. E logo poderemos acompanhar Tremembé, ambientada no presídio conhecido de quem acompanha a crônica policial. Em que trabalhos como esses enriquecem sua trajetória de atriz, além da ambientação e dos conflitos típicos de policiais e detentos/apenados?

LT – Eu tô amando suas perguntas, pois uma pergunta como essa nos faz aprofundar reflexões importantes sobre o fazer artístico. Quem nunca atuou, e só nos assiste pela TV, não imagina como é árduo o trabalho de uma atriz, de um ator. É uma dedicação imensa, um trabalho psicológico também muito intenso… Sendo assim, é um ofício que exige muito da gente. Então, fazer personagens tão distintas é uma oportunidade e tanto de estudo e ampliação de repertório artístico e humano. Personagens diferentes trazem óticas diferentes pra nossa vida. Isso é muito rico.

FC- Como você enxerga a atuação do governo em relação à Cultura hoje? Este infelizmente é um setor que costuma ser menos valorizado do que merece, seja o governo de direita ou de esquerda.

LT – Eu tenho visto esforços hérculeos de se recuperar o que fora devastado anos atrás, no governo anterior. Porém, de fato, a cultura segue enfrentando muitas dificuldades e sinto lentidão no avanço de tópicos muito importantes pra nossa área. A luta segue.

FC – Sua experiência como madrasta gerou muitas reflexões e um livro, criado de uma perspectiva interessante – a de que a mulher que convive com filhos do companheiro é automaticamente “bruxa” e não pode cometer erros no cotidiano, contra a consagrada posição de “novo pai” que o homem obtém na mesma situação. Considera ou já considerou a possibilidade de aproveitar sua vivência em algo no audiovisual que valorize e ajude a ressignificar as madrastas?

LT – Sem dúvida. Tenho um projeto sobre isso, que espero conseguir viabilizar. Vale acrescentar que o livro partiu não só das minhas vivências, mas de dezenas de entrevistas que fiz com madrastas. Foi uma pesquisa relativamente extensa. Mesmo atualmente, sinto que na dramaturgia a madrasta ainda não recebe o mesmo valor que um padrasto. Há que se mudar essas narrativas, já que as famílias hoje já não são mais as nucleares imutáveis de décadas atrás.

FC – Uma pergunta que toda atriz recebe em algum momento: hoje, que personagem você gostaria de ter a oportunidade de representar?

LT – Tenho muitos desejos. Mas adoraria poder me aprofundar em uma personagem criminosa, por exemplo. Essa densidade das personagens mais sombrias me interessa muito, pois a psique humana e seus tantos caminhos é algo que adoro investigar.

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