Manuela Dias provou, com o remake de Vale Tudo, que tem fôlego de sobra para comandar um dos horários mais exigentes da televisão brasileira. Com uma adaptação que respeita o original, mas atualiza com inteligência os dilemas do Brasil contemporâneo, a autora reafirma sua habilidade em conduzir tramas complexas, personagens densos e diálogos afiados — marca já presente em seus trabalhos anteriores, como Justiça e Amor de Mãe.
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Apesar da competência evidente, não faltam críticas enviesadas à condução da trama — e muitas delas trazem um viés que merece ser analisado com cuidado. É sintomático que, quando um autor homem assume uma novela das 21h, erros de ritmo ou estrutura sejam tratados como desafios do processo criativo. Com Manuela, a régua parece ser outra: qualquer tropeço vira sinônimo de incompetência, o que revela um machismo velado ainda presente nos bastidores e no discurso crítico.
A condução firme de Manuela se destaca justamente por não se prender ao que seria ‘esperado’. Sua leitura da obra de Gilberto Braga é sensível, atual e corajosa. Ao colocar a corrupção estrutural, o cinismo das elites e a fragilidade das instituições novamente em cena, ela nos lembra que Vale Tudo continua sendo, infelizmente, uma história possível em 2025. A autora reconfigura a trama sem medo de arriscar e mostra domínio tanto do universo dramático quanto do momento político em que vivemos.

Se a novela tem altos e baixos — como qualquer obra de fôlego —, é preciso reconhecer que poucos nomes da dramaturgia atual teriam coragem (e preparo) para assumir um clássico dessa magnitude. Manuela Dias está entre esses poucos. E talvez, justamente por isso, incomode tanto.
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